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SIMPLICIDADE
Gosto de relatar estórias. Casos simples
que encerram conceitos da maior qualidade. Disse relatar, pois sou
péssimo em contar estórias...
Quando criança, conheci um homem, nosso vizinho, que era chamado por
todos de “Zé das Frutas”. Zé era uma pessoa muito simples, rude até, sem
nenhuma formação escolar, mas dotado de um dom e de um carisma muito
especial. Gostava de conversar com todo mundo, seja velho, jovem,
criança, enfim qualquer um que dele se aproximasse. Sabia ouvir e
responder a todos com um sorriso.
Cuidava com esmero e capricho de uma pequena horta e um pequeno pomar
que mantinha no quintal de sua casa. Raramente encontrávamos Zé fazendo
outra coisa se não tratando de suas plantas. Fazia isso ora cantando ora
assobiando. Era uma peça rara, como dizemos hoje.
Embora a razão do seu apelido fosse óbvia, eram poucos os que conheciam
sua verdadeira história. O que todos sabiam era que quando precisavam
comprar uma fruta ou verdura fresquinha e de qualidade, era só ir até a
casa do Zé. Diziam que eram as melhores da região. Suas verduras eram
firmes e viçosas e suas frutas brilhantes, rosadas e de sabor
inigualáveis.
Minha mãe sempre me pedia para ir “buscar” alguma fruta ou verdura na
casa do “seu Zé”. Uma dessas vezes, a curiosidade de menino me fez
perguntar-lhe como fazia para que suas verduras e frutas fossem
diferentes das dos outros tantos agricultores e micro sitiantes da
região. Seu Zé olhou-me por alguns momentos, a princípio surpreso,
depois se sentou num tronco de árvore caído, convidando-me a fazer o
mesmo.
“- Filho, disse-me ele, as coisas não foram sempre assim. Houve uma
época em que eu era conhecido como “não faz nada que preste”. Todos de
casa me tratavam assim. E isso era a pura verdade. Tudo o que fazia não
dava certo. Era um verdadeiro desastrado. Não prestava pra nada! Um dia,
depois de mais um desastre, e meio a grande agonia, alguma coisa
aconteceu. Pensei: sou um grande fracasso, não sei fazer porcaria
nenhuma, então minha única saída é ajudar alguém que saiba fazer as
coisas certas. A partir daí, comecei ajudar a Natureza. Está vendo estas
belas frutas e estas folhas verdinhas de dar água na boca?! Não sou eu
quem as faço, eu só ajudo a Natureza!”
Corri até minha mãe e perguntei se ela sabia que não era “seu Zé” quem
fazia as frutas e verduras que ela tanto gostava. Ela me respondeu com
um largo sorriso: “-Claro que sei, filho, é Deus!”
Geraldo Costa
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